Terça-feira, Maio 08, 2012

PoPuLar pOst Modern MorteM

Cabelo preto. Preto. Liso.
Caía sobre os ombros estreitos. Dois palmos dos seus. Com todo o peso dos olhos cansados que ele, bêbado de desejo e de vinho que não soubera escolher, fixava nas pontas dos dedos dela, finos. Finos. Curtos. Perfeitos. Que ela passava por dentro do
Cabelo preto. Preto. Liso.
E fazia aparecer como pequenas promessas de futuros menos cinzentos, disponíveis em várias cores e entregues ao domicílio sem custos adicionais*.
a)      O indicador, carmim, urgente paraíso da carne.
b)      O médio, verde, plácido prado de familiaridades e gostos em comum.
c)       O anelar, anil, gélido mar de anos e anos de contemplação mútua, mas também não se via assim muito bem, a ponta do dedo surgindo por entre o
Cabelo preto. Preto. Liso.
Ela deslizou a língua entre os lábios grossos. Grossos. Rubros. Antes de sussurrar numa voz doce. Doce. Aspartamo. Há mousse para a sobremesa. Queres? Ele baixou, pela primeira vez, os olhos. Fixou algo que não viu. Que nunca recordará. Pensou em tudo o que permitiria responder Em nada! caso a fatídica pergunta surgisse. E veio a habitual bruma dos sentidos. Que o cobria. Gelando até aos ossos. Quando não a via. Ou temia perdê-la. A dormência dermóide. Que era não se ter em si de não se ter nela. Todo. Assim. Fundidos. Fechados. Lacrados. E enviados para uma Vivenda O Nosso Sonho qualquer. Com andorinhas do Bordallo. Fitou-a outra vez. Para que todo aquele peso lhe saísse dos ombros. Não os dela, estreitos. Dois palmos dos seus. Tudo voltou a fazer sentido. Mesmo quando disse Não. Prefiro que te descalces. Ela, que sabia muito bem o que vinha a seguir, decidiu não adiar. E adiante foi, inclinando-se sobre a mesa. O
Cabelo preto. Preto. Liso.
Caiu sobre os restos de esparguete. E pimento. E azeitonas. No prato. Ele sentiu-lhe o hálito. Quente. E recordou. As Carícias. As Delícias. As Malícias. E a vez em que tiveram de parar porque na rua alguém atropelara um cão. E de como ela gania. E de como ele grunhia. No fim. Por fim, fechou os olhos. Ela tão perto. Acerca. A cerca. Que ela erguera. Um dia. Podia jurar que conseguia ouvir-lhe as pestanas a pousar uma sobre a outra. Flap | Flap | Flap | Flap
Espero que as claras não tenham caído. Estou menstruada, disse-lhe ao ouvido.
*Esta promoção está sujeita à disponibilidade e não pode ser acumulada com outras.

Terça-feira, Março 13, 2012

OnE fiNe sAtuRdaY (1)

Era uma vez
E como não podiam ser duas
ele fez
ele foi
deixar uma vela na igreja
pediu muitas
muitas
vezes infinito raiz quadrada ao cubo equilátero

ela pôs-se de 4
disse Meu boi
Diz-me se é assim que queres que esteja

ele comeu-a como quem beija


Segunda-feira, Novembro 07, 2011

bUs StOp

Uma paragem de autocarro. Que ficava entre duas araucárias. Que ficavam entre uma fila de ciprestes de muitos, muitos quilómetros. Ao longo de uma estrada que rasgava muitos mais. De nada. Ou quase. A certas horas do dia, sempre as primeiras ou as derradeiras, as árvores projectavam as suas sombras cónicas até ao limite da colina além ao fundo. Eurípedes não se importava de esperar tanto tempo pela carreira. Era uma das poucas coisas que não se importava de fazer. Mas tinha de ser aqui. Nesta espécie de paralelipípedo. De chapa ondulada. Pintada de verde. Sem um dos lados. Com uma tábua de madeira de topo a topo. Gostava de ouvir o canto dos pássaros e tentar adivinhar espécies. Com uma margem de erro que ele próprio traçava antes de dar início oficial ao desafio. Que era quase sempre de um em dez. Tão esparsos eram os carros que por aqui passavam que, conforme o vento, era até possível ouvir, de hora em hora, o sino da aldeia mais próxima. Que estava muito longe. E era a sua. Tudo isto o envolvia num tão morno manto de afecto que não poucas vezes dava o exemplo de como o mar, visão a que teve acesso apenas uma vez na vida, numa excursão da escola, não lhe inspirou especial encanto. Antes achou curioso como a areia da praia, que naquele longíquo dia gelava os pés descalços, estava mais quente por baixo. Cremilde, a sua namorada na altura e com quem esteve para casar até à véspera da boda, também achou o fenómeno interessante. Aos pés de Eurípedes está Fiel, o cão. Que o homem apresenta às pessoas como sendo Cão, o fiel. Está velho. Dormita e só abre os olhos quando o dono deixa cair uma beata para o chão. Faz pouco mais. Para além disso e de seguir, diariamente, o dono até este lugar. O autocarro passa. O homem, que o ouviu a aproximar-se, não se moveu. Depois, como que falando para o cão, disse É o que sai de Beja às 11h20. São horas de nos pormos a andar. E o animal, como que percebendo cada uma das palavras, ergueu-se tremulamente nas patas e combateu o reumático com um alongamento dos quartos dianteiros. Nos montes circundantes, ninguém sabe porque tem Eurípedes este ritual. Uns dizem que tudo se deve a Cremilde ter partido, na véspera do casório, na carreira da Mina de São Domingos para o Campo das Cebolas. Nunca mais deu sinais de vida. Os mais novos dizem só que o homem é maluco, inundando-o, jocosos, de copitos de vinho até ele tropeçar na língua. Nós só sabemos que um homem com um cão numa paragem entre duas araucárias e uma fiada de ciprestes é uma imagem bonita. E, para já, é o que interessa. 



Sexta-feira, Novembro 04, 2011

hELp tHe aGEd, diria Jarvis...

Rodovalha tentara, de toda a maneira, feitio e mais qualquer coisinha, livrar-se daquilo. Dezenas, centenas, depois milhares e finalmente milhões, garantia, sem temer exageros, a uma parcimoniosa audiência de idosos bafientos, esparsamente sentados pelas doze (12) mesas de fórmica do café/leitaria/snack-bar KaTeKero. Todos eles de boca aberta. Uns por admiração ou fascínio. Outros porque é assim que os velhos ficam quando se distraem. Maxilar inferior estendido ao infinito. Cachalótico prognatismo. Dois dentes por sujeito. Em média. Júlio, que cheirava às laranjas que descascava, todos os dias, ao primeiro sinal da aurora, foi o único que assumiu a sua ignorância. Puxando os óculos para a ponta do nariz, onde tinha uma pequena selva de pêlos negros e hirsutos, disse Mas que raio vem a ser um gorgulho? Rodovalha quedou-se, assim, de braços erguidos do gesto que usara para transmitir a noção, rodando apenas a cabeça em direcção ao extraterrestre que não sabia o que era, provavelmente, o insecto mais comum do planeta, logo a seguir aos militares. Não olhe assim para mim, minha senhora. É só uma pergunta. Não responda se não quiser, que eu oiço a história à mesma. É o que faço com o meu médico da Caixa, disse o engelhado humano. Risada. à excepção dos moucos. Rodovalha pensou Sacana do velho. Só para tirar esse cheiro a cânfora precisavas de três banhos de creolina. E essa caspa nos ombros dava para polvilhar uma fornada de pastéis de Tentúgal, mas disse apenas Meu caro amigo... o gorgulho é um bicho que vai às leguminosas secas, ao arroz, às sêmolas. O antigo acenou negativamente. E a obsoleta entre os dois mexia deseperadamente no aparelho auditivo franzindo, mais ainda, as feições. Tenho a casa cheia daquilo, gente. Maria Antónia, a alcoviteira, que cheirava a naftalina, raspou mais uma vez o interior do pastel de nata com a colher do carioca de limão, lambeu-a, deu uma ruidosa trinca na massa folhada e declarou, cuspindo grandes bocados em todas as direcções Se fossem baratas era pior. Rodovalha achou que não. Porque ninguém sequer imaginava o que era abrir a porta da despensa e ouvir a sinfonia de bocas a roer. Uma espécie de bulício sem fragor. Um permanente burburinho. Irritante. Foi o que ouvira ainda antes de dar conta da infestação. E pensou estar louca. Hipótese que nunca antes havia colocado. Ao contrário de quase toda a gente. Clotilde, que cheirava a gatos e tinha sido, nos longínquos anos quarenta, o mulherão de Lisboa, frequentadora de casas de fado, cabarets e bares do Cais do Sodré, solícita prestadora de serviços mais íntimos e vendedora de limões na Rocha Conde d'Óbidos, propôs Eu tenho lá um pó que me deu conta das baratas, traças e assim. Rodovalha pensou Eu envenenava-te era a ti, minha porca, que és a vergonha do bairro, mas disse apenas Não é preciso, Dona Clotilde, muito obrigada. Uma cadeira arrastou, no extremo da sala, rugindo no chão de lajes moiras. Todos os olhos se dirigiram para ali. Os surdos também. Por causa da vibração no chão. Metes tudo no congelador, grão, feijão, arroz e massas. Depois demolhas que a bicheza flutua toda. E tu é que és a vergonha do bairro e não vais envenenar ninguém, disse Alda, que cheirava a perfume de drogaria e, dizia-se, lia pensamentos.







Segunda-feira, Outubro 31, 2011

TraVeL wRiTinG 4 duMMieS

Deodato sentou-se. Esculpindo um baixo-relevo de duas nádegas na fina areia da praia do Almoxarife. Em seu redor, um sem-fim de caravelas portuguesas. Que ficaram da última preia-mar. Dezenas de pontos púrpura como que a cromatizar o areal cinzentão. À esquerda a Ponta da Espalamaca. À direita, a Horta. Paragem obrigatória de mareantes mais aventureiros e menos românticos de todo o mundo. Tristemente igorado por tantos portugueses. Fascinados pelo exotismo. Ignorantes de assombro. Em frente, o Senhor Imenso. Majestoso Pico. O costumeiro anel de nuvens em torno do cume. Um Kilimanjaro mais marujo. Apagou o cigarro Além Mar. No resto da cerveja Especial que deixara, propositadamente, no fundo da garrafa. E voltou a admirar a velocidade a que a sombra escalava, pela encosta direita, vulcão acima. Daí até à noite cobrir a tudo e a todos à excepção do Piquinho, derradeira ponta rosa antes das trevas, pensou apenas em como este lugar, mágico e único, poderia ser o mais belo do mundo. Ergueu-se e mirou, mais uma vez, o Canal. Para reparar num vasto dorso que, lá longe, apareceu. Reconheceu a espécie pela expiração do espiráculo. Foram anos de artes beleeiras a ganhar manhas que não se perdem numa vintena de interdição. Era uma baleia-de-Bryde. Uma das que nunca se atrevera a arpoar. Mesmo nos seus tempos mais intrépidos. Ficara-se sempre pelos cachalotes. Que já davam trabalho sobejo. Perante tal visão, tão habitual como enlevada, Deodato pensou que, definitivamente, não haveria lugar mais maravilhoso. Acreditava mesmo que o Espírito Santo, ele próprio, pousara aqui a imensa mão. Num dia mais inspirado. Mas foi já a subir as escadas de lava tosca, ao colocar a mui católica e pouco cristã hipótese de não haver paraíso sem senão, que a terra tremeu.








Segunda-feira, Outubro 24, 2011

MoNKey GirL

A miúda do macaco gostava de caras de bacalhau com todos. O macaco da miúda gostava de festas no queixo. Quando alguém diz algo que não deve devia dizer algo para que o outro algo diga. O silêncio é a mais condenadora das interjeições mudas, disse ela um dia. True, respondeu o símio, que era erudito e falava línguas. Isso não é uma interjeição. Um "groumpf" ou um "bah" tinham sido mais assertivos, mas dada a constituição monossilábica da palavra vou considerá-lo como tal, intervencionou ela. Also true, prosseguiu o primata. I think we should stop seeing each other, ironizou a humana. Fuck you biátch, crunhiu o bicho. Ela cortou o ovo cozido ao meio, espetou o garfo numa das metades, depois num bocado de cenoura e ainda num pouco do lábio do bacalhau e, enquanto mastigava, fez planos para molhar um pouco de papo-seco no azeite que ficaria no prato quando só as espinhas restassem. Esse, ao menos, pareceu-lhe um projecto exequível. 


Quinta-feira, Outubro 20, 2011

GrOunD cOntrOl tO mAncEbo dIAZ

Lígia acordou em sobressalto sem que o despertador tocasse mas já depois de o ter desligado três vezes, ao mesmo tempo em que, na outra ponta da cidade, Lúcia quase dava por terminado o serviço de limpeza na empresa que contratara a sua prestação de serviços, não fora a embalagem de limpa-vidros que derramara sobre o portátil aberto na secretária do Director Geral.


Eduardo estava prestes a servir uma meia de leite escura e uma torrada aparada à Dona Eládia quando ouviu o seu telemóvel tocar na copa, no preciso momento em que Esmeralda, numa cidade não muito longe memorizava, em frente à televisão e de comando do velhinho leitor VHS na mão, os diálogos de um filme.


Gonçalo rodava, sem sucesso e pela sétima vez, a chave na ignição, tentando ignorar o cheiro a gasolina e o olhar jocoso dos transeuntes da Av. das Forças Armadas, enquanto duas transversais ao lado Gina atingia o seu orgasmo de obrigação contra o peito sem pêlos nem amplitude do namorado que cheirava sempre, mesmo depois do banho, a loja chinesa.


Piedade acenava ao autocarro a transbordar, pressagiando o insucesso do gesto e gritando, antecipadamente, Filho da puta ao motorista que, podia jurar, trazia um sorriso travesso na cara sulcada de sol filtrado a pára-brisas, coincidindo tudo isto com o salto que Pedro dá, alguns metros de profundidade abaixo, para a linha, segundos antes do metro direcção Pontinha entrar na estação.


Amir ignora, ao passar na Rua da Amendoeira, o violento embate no seu ombro de uma bola que, todos os dias, os putos do bairro chutam na tentativa de derrubar o turbante no exacto segundo em que, no outro lado do Mundo, um Director de Linha de Produção, chamado António, dorme o sono dos justos depois de, pela terceira vez em apenas um ano, ter mandado trezentos e cinquenta trabalhadores de uma exploração de óleo de palma para casa.


Eduardo atendeu o telefone e disse Sim, amor, estou a trabalhar, o que foi? ao mesmo tempo que Lígia entrou, à pressa, para o duche.


António acordou sentindo um calafrio a correr a espinal medula no sentido ascendente e reparou que tinha as palmas das mãos completamente suadas no preciso momento em que Gina olha para o namorado, passa a língua nos lábios e diz Estou grávida!


Gonçalo consegue finalmente que o velhinho Peugeot 205 Lacoste pegue e grita Yahooo! Jean Jacques, eu sabia que não me ias falhar enquanto Lúcia se desdobra em mil e uma desculpas perante o Senhor Director que acabou de entrar no gabinete.


Piedade decide esticar o polegar e parte um salto no exacto segundo em que Esmeralda conclui que já sabe de cor a deixa pretendida porque já é a décima vez que a recita sem qualquer inexatidão.


Pedro não sente o embate do metro porque morre de uma electrocussão coincidente com o momento em que o agente do SEF, mastigando pastilha elástica, ergue a mão, olha Amir nos olhos e ordena, sem antes desejar um bom dia ou dizer Salam Malaekum, Passaporte, fáxabôr!


Esmeralda pega no telemóvel e liga, com uma lágrima num dos olhos mas sem ranho no nariz a confirmar qualquer tristeza, para o namorado.


Lígia repara no fio de sangue que lhe escorre pelas pernas. Chora!


Eduardo ouve, do outro lado da linha, This is a story of boy meets girl. The boy, Tom Hansen of Margate, New Jersey, grew up believing that he'd never truly be happy until the day he met the one. This belief stemmed from early exposure to sad British pop music and a total mis-reading of the movie 'The Graduate'. The girl, Summer Finn of Shinnecock, Michigan, did not share this belief. Since the disintegration of her parent's marriage she'd only love two things. The first was her long dark hair. The second was how easily she could cut it off and not feel a thing. Tom meets Summer on January 8th. He knows almost immediately she is who he has been searching for. This is a story of boy meets girl, but you should know upfront, this is not a love story e conclui, pela conversa da véspera, depois do visionamento do filme "500 Days Of Summer", que a namorada está a acabar tudo com ele.


Gonçalo repara que a sua namorada de liceu, mais magra, gira e sem borbulhas, está à beira da rua a pedir boleia. Sem perceber porquê, vem-lhe à cabeça, pela primeira vez desde que foi proferida, há mais de dois meses, a frase Tem cuidado que eu estou saída! 


Lúcia fica espantada com o sorriso benevolente do homem que tanto medo lhe inspirava até agora, enquanto ouve Não faz mal. Compro outro. Que tudo fosse assim tão simples.


Gina suspira, inspira outra vez e prende o fôlego para dizer Mas não é teu.


Piedade vê que o seu ex-namorado de liceu, mais gordo e desleixado, pára para lhe dar boleia para o trabalho, diz-lhe Que surpresa! Estás diferente! mas pensa E foi este estafermo o único que deixei vir-me ao cu.


António teme que o pressentimento tenha a ver com a gravidez da mulher.


Pedro fica confuso porque não sabe se deve caminhar para a luz ou afastar-se dela, como dizia a pequenota do filme "Poltergeist", que vira há muitos anos no Cinema Condes com a mãe, Lúcia, que queria levá-lo a ver o "Ghostbusters" mas enganou-se porque não percebia muito do assunto e só o queria fazer feliz.


Amir suplica, enquanto é algemado e durante todo o trajecto para extradição, para que liguem para o filho, que é Director Geral numa empresa de renome, sabendo contudo que os separam algumas décadas de silêncio depois de palavras amargas proferidas numa ceia de Ramadão.


Dona Eládia ergue, lá ao fundo da sala, a mão direita meia de leite escura e a torrada aparada, caralho?



































Quinta-feira, Outubro 13, 2011

FiCçãO dE bOmBaZinA

O tilintar dos talheres em loiça e vice-versa.

Josineide olhava com estranheza, estampada no rosto moreno, pueril e delicado, para a mesa em frente. Um operário, de fato-macaco e pontas dos dedos tingidas de negro em cada linha da impressão digital, comia uma espécie de pequeno disco amarelo. Mordia-lhe a ponta. Apertava. Libertando o interior numa suave projecção para o fundo da boca. Depositava a casca num pires. Acompanhava o belisquetchí com um chôpe gelado. O que provava que era bom. Mas exótico. 

Josineide, Agostinho da parte do pai, Dorivaldo, e Almeida da parte da mãe, Benvinda, que a parira de cócoras, agarrando-se à vida e a sonhos por concretizar e às grades dos pés da cama, chegara a Portugal há pouco mais de dois meses. Vinda de um lugar mais quente, com música na rua e onde chôpe vai com castanha de cajú frita em pimenta. Ou açúcar. 

Carlos, sentado ao seu lado, fita-a, segue o tracejado da direcção do seu olhar e diz, monocórdico, com a habitual voz de castrado mas sem o ser, como ela comprovara da pior maneira, da que dói e dá nojo e faz tomar dez duches e o cheiro não sai Não devias olhar dessa maneira. Parece que vens de Marte ou assim. Que nunca viste pessoas. Ela rodou a cabeça pela primeira vez nos últimos sete minutos e mirou a pobre amostra de homem, a quem oferecera, em segredo entre colegas, a alcunha de Mico Saguí Não vejo mesmo..., declarou. O Anão de Circo, como lhe chamava Kleide, a mais antiga da casa, elevou as sobrancelhas até quase ficarem escondidas por trás do cabelo negro e hirsuto Como não? Tens dos trabalhos mais sociáveis que há. És um Front Desk, pá. Um Customer Care com uma lista de Key Accounts, e sorriu tão maliciosamente quanto o bigode de vinte anos sem cuidados o permitia perceber. Está me xingando? Está pensando que eu sou o quê? Tua vovó? Tenho grades nas janelas que nem favelado, como todo o dia o que dão para mim, a veneziana não abre nem por o Natal e a única visita que tenho sem ser cliente é a cabra da peste da esteticista que vem depilar minha xereca, quase gritou sussurrando, se é que isso é possível, porque foi, de facto, um sussurro, isso garante-se, mas cravando as unhas de gel no tampo da mesa, cerrando os dentes com a força de um pittbull e projectando um ou dois gafanhotos para a cara do chulo. Esse gozava o prato São mordomias que a maior parte das portuguesas dariam o cu e dez tostões de real para ter. Ao menos não levas nos cornos quando o Benfica perde. Ou porque sim. Ela vira novamente a cara na direcção do pequeno prato de frutinha amarela, exalando um Não enche o saco, não faz ameaça, não vem de garfo que hoje é dia de sopa, vai tomar no cu e vai ter com a tua turma em apenas um suspiro. 

Carlos levanta-se.

Josineide Almeida Agostinho encolhe-se por instinto.

Vou mijar, diz ele. Ela ergue o olhar, sorri e diz, desta vez para que todo o estabelecimento oiça Vai. E puxa a pelinha para trás, que tá parecendo pescoço de galinha. E deve ter estado fora da geladeira, porque também está fedendo. Agora é ele que serra os dentes. Poucos. Não te queixaste, puta, diz. E podia?, continua ela, de sorriso rasgado por saber ter irritado o Pequeno Macaco, como lhe chama Maria Aparecida, a menina do quarto 100 que todos os clientes acham que tem 18. Mas tem 12.

O homem da mesa em frente ergue, finalmente, os olhos do jornal Chamam-se tremoços. És servida? Ela fita-o, sorri, pisca duas vezes os olhos e responde Oi? 


Quarta-feira, Setembro 14, 2011

oS cAmPoS AzÍaGOs

Manfredo Malapata parou o carro na berma da nacional número indefinido. Saiu. Montado adentro trouxe, na volta, um ramo de flores silvestres. Estendeu-o a Miriam Meireles, que respondeu, friamente, Sabes bem que sou alérgica. Distância disso, por favor. Reiniciada a marcha, bastaram quinze minutos e alguns segundos para que a estrada rasgasse uma aparentemente interminável planície coberta de trigo. Manfredo voltou a imobilizar a viatura e só depois propôs Vamos andar ali no meio. Será bonito. Miriam virou a cabeça, encostou o queixo ao peito e baixou os óculos escuros, para que ele lhe visse o seu melhor olhar reprovador Sabes a quantidade de bichos que deve haver para ali? Para além disso, este é o meu melhor vestido. Continua a guiar senão nunca mais lá chegamos. Odeio chegar atrasada. Ele pisou o acelerador. Mas ainda fez a derradeira tentativa, poucos quilómetros à frente, quando atravessavam uma serra que, no sentido descendente, revelava o imenso mar. Voltou a imobilizar o carro, desta feita num miradouro. Ela levanta a voz Maaaauuuu, nem penses! E o meu medo de alturas? Parece que não me conheces! Ele desiste. Conduz por instinto, sem pensar. Ignora, sequer, a beleza da densa floresta que, agora, lhes passa por fora. Tenta aceitar a má sorte que lhe calhou em vida. Ou a má vida que lhe calhou em sorte. Chegar ao destino o mais rápido possível. Como ela lhe pedira. Estavam finalmente de acordo. Menos mal. Pára aqui, pede-lhe ela, abrindo a porta. Volto já. Há papel higiénico?



Terça-feira, Setembro 13, 2011

CiGaREtte ciGareTTe S'iL vOUs pLaiT

Quantos cigarros são precisos para morrer? perguntou Oskar Schindlerhosen a Marlene Dietrischenbower. O amor da sua vida. Deitada a seu lado. Sobre os lençóis ensopados. E a quem escorria uma minúscula gota de suor da base dos seios à primeira prega da barriga. A medida exacta é metade dos que fumaste desde o início da manhã, respondeu-lhe. Com um cândido sorriso nos lábios. Também Oskar sorriu. E pigarreou. Depois tossiu. E cuspiu uma enorme posta de sangue para o balde de cinco litros ao lado da cama pousado sobre o tapete de Regensburg que é tipo a Arraiolos de lá...